As carreiras ligadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conhecidas como STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), estão no centro das transformações tecnológicas, econômicas e sociais do mundo.
São essas áreas que impulsionam avanços em saúde, energia, inteligência artificial, sustentabilidade e inovação. No entanto, quando observamos quem está construindo esse futuro, um dado chama atenção: a presença feminina ainda é significativamente menor do que poderia ser.
Dados recentes de organismos internacionais mostram que apenas cerca de 35% dos graduados em cursos STEM no mundo são mulheres. Quando olhamos para a produção científica global, o número permanece semelhante: aproximadamente um terço dos pesquisadores é feminino. No mercado de trabalho, o desequilíbrio se amplia ainda mais: mulheres ocupam cerca de 22% das posições em áreas STEM nas principais economias do mundo.
Esses números não refletem falta de talento ou interesse. Diversos estudos mostram que meninas demonstram curiosidade e desempenho em disciplinas científicas desde cedo. O desafio está, muitas vezes, na ausência de referências, estímulos e oportunidades ao longo da trajetória educacional e profissional.
Foi justamente sobre esse tema que tive a oportunidade de conversar com jovens estudantes no ano passado, durante uma ação voluntária em uma escola técnica. O objetivo era simples, mas poderoso: ampliar o horizonte de possibilidades e mostrar que ciência, tecnologia e engenharia também são caminhos possíveis e promissores para mulheres.
A quantidade de perguntas e a curiosidade das estudantes reforçaram uma convicção importante: quando mostramos exemplos concretos e abrimos espaço para diálogo, novas trajetórias começam a ser imaginadas.
O que são carreiras STEM e por que elas são tão estratégicas
As carreiras STEM englobam profissões ligadas à ciência, tecnologia, engenharia e matemática, áreas diretamente conectadas à inovação e ao desenvolvimento tecnológico.
Com a aceleração da transformação digital, essas competências tornaram-se ainda mais valorizadas no mercado de trabalho. Habilidades relacionadas à análise de dados, tecnologia, engenharia e pensamento analítico estão entre as mais demandadas globalmente.
Além da alta demanda, essas carreiras costumam oferecer:
- forte potencial de impacto social e científico
- oportunidades de inovação e pesquisa
- valorização profissional no longo prazo
- possibilidade de atuação em ambientes globais
Ou seja, são áreas que moldam o futuro e que precisam cada vez mais de diversidade de perspectivas para inovar.
Mulheres brasileiras que estão fazendo a diferença na ciência
A representatividade tem um papel fundamental para inspirar novas gerações.
Um exemplo amplamente reconhecido é o trabalho da biomédica Jaqueline Goes de Jesus, que participou do sequenciamento do genoma do coronavírus no Brasil logo no início da pandemia, contribuindo para acelerar o entendimento da circulação do vírus no país.
Outro nome importante é o da geneticista Mayana Zatz, referência internacional em pesquisas sobre genética humana e doenças neuromusculares, com décadas de contribuição científica e formação de novos pesquisadores no Brasil.
Mais recentemente, a neurocientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio tem ganhado destaque por pesquisas voltadas à regeneração do sistema nervoso. Seus estudos investigam substâncias capazes de estimular a recuperação de conexões neurais e favorecer a recuperação de funções motoras, um campo promissor para o tratamento de doenças neurológicas e lesões da medula espinhal.
Histórias como essas mostram que o talento feminino na ciência brasileira já está presente e que ampliar a visibilidade dessas trajetórias pode ajudar a inspirar novas gerações a seguir caminhos semelhantes.
Quando a escolha de carreira começa
Durante a conversa com estudantes na escola técnica, fiz uma pergunta simples:
“Quais matérias vocês mais gostam?”
Matemática, biologia, química e física apareceram rapidamente entre as respostas. No entanto, quando a conversa avançou para escolhas de carreira, muitas meninas ainda demonstravam dúvida sobre seguir esses caminhos.
Esse tipo de situação é comum. Pesquisas sobre educação mostram que muitas meninas demonstram interesse inicial por ciência e tecnologia, mas acabam se afastando dessas áreas ao longo do tempo por falta de estímulo ou referências.
Por isso, ampliar o acesso à informação e apresentar exemplos concretos pode fazer uma grande diferença.
Às vezes, tudo o que uma jovem precisa ouvir é que aquele caminho também pode ser dela.
STEM também é sobre liderança
Quando falamos de ciência ou tecnologia, muitas vezes imaginamos apenas laboratórios ou desenvolvimento de sistemas. Mas essas áreas exigem cada vez mais competências de liderança.
Projetos científicos e tecnológicos envolvem colaboração entre diferentes especialidades, tomada de decisões complexas e capacidade de inovação.
Isso significa que profissionais de STEM precisam desenvolver também habilidades como:
- pensamento crítico
- comunicação clara
- colaboração multidisciplinar
- capacidade de influenciar decisões
- liderança em ambientes complexos
Ampliar a presença feminina nessas áreas também significa ampliar a diversidade na liderança científica e tecnológica.
E diversidade é um fator diretamente associado à inovação.
O papel da mentoria no desenvolvimento dessas carreiras
Outro elemento importante para o avanço feminino em áreas técnicas é o acesso a mentoria e redes de apoio.
Programas de mentoria permitem que profissionais em início de carreira tenham contato com experiências reais, ampliando sua visão sobre caminhos possíveis e desafios da trajetória profissional.
A troca com profissionais mais experientes pode ajudar a desenvolver confiança, ampliar perspectivas e acelerar o aprendizado, especialmente em áreas onde a representatividade feminina ainda é menor.
Mais do que orientação técnica, a mentoria oferece algo essencial: perspectiva.
Construindo o futuro com mais mulheres na ciência
A transformação das carreiras STEM não depende apenas de escolhas individuais. Ela envolve escolas, universidades, empresas e sociedade.
Algumas ações que fazem diferença incluem:
- incentivar meninas desde cedo em disciplinas científicas
- ampliar programas de mentoria e desenvolvimento
- divulgar exemplos de cientistas brasileiras
- criar ambientes organizacionais mais inclusivos
- fortalecer o protagonismo feminino em áreas técnicas
Quanto mais cedo ampliarmos essas oportunidades, maior será o impacto para as próximas gerações.
Um convite às próximas gerações
A tecnologia e a ciência continuarão moldando o mundo nas próximas décadas.
Garantir que esse futuro seja construído por talentos diversos é essencial para acelerar a inovação e ampliar o impacto positivo da ciência na sociedade.
Se há algo que aprendi conversando com jovens estudantes é que curiosidade e potencial já existem.
Muitas vezes, tudo começa quando alguém mostra que aquele caminho também pode ser delas.
Porque o futuro da ciência, da tecnologia e da inovação será ainda mais poderoso quando for construído por mais mulheres pesquisadoras, engenheiras, cientistas e líderes.
Fontes e referências
Dados e informações deste artigo foram baseados em estudos da UNESCO, UNESCO Institute for Statistics, World Economic Forum (Future of Jobs Report 2023) e publicações sobre a atuação de pesquisadoras brasileiras na ciência.